Ele saiu no escuro, sozinho, pois ele era O Cara. Sabia que nada nem ninguém poderia atingi-lo, mas por via das dúvidas trazia uma faca bem afiada enfiada na calça. Bem na frente, pois ali saberia que ninguém se atreveria a enfiar a mão.

Uma vez por mês as noites se tornavam mais sombrias que o comum…era a noite do Corte Geral naquela “droga de cidade imunda, minúscula e xexelenta”, quando o prefeito cortava a luz de toda a pequena cidade de meros 1.000 habitantes para economizar seus gastos com as empresas fornecedoras de energia…e embolsar as economias. O resultado se via em sua casa, carros e viagens.

Nessas noites, os adolescentes se encontravam na beira de um rio local. Esse rio era reconhecido pelas correntes selvagens e por ser a desova favorita da cidade há tempos…era um lugar tradicional de morte, e essa tradição era respeitada por todos, especialmente pelos suicidas, que faziam a gentileza de se atirar sempre nesse mesmo lugar. Isso facilitava a vida da polícia: quando alguém sumia, era só procurar no rio.

Nessas noites, os adolescentes honravam essa tradição com ritos de coragem, com desafios até a morte… ou até a desistência, e ele costumava ser o vencedor, o mais bravo: O Cara.